Sonhando com os olhos abertos

Sonhando com os olhos  abertos

quarta-feira, 8 de junho de 2016

-A solidão é uma  doença 

Ana acordou.Como sempre, a   primeira coisa ,quando abre os   olhos ,é  uma  forte fotofobia, e saindo da cama, se encostar nas beiradas das coisas até chegar ao banheiro, faz necessidades e se lava.
Ao sair do banheiro, vai direto à cozinha, liga a tomada da   luz  extra , coloca   o papel toalha sobre uma tábua branca sobre  a pia  cinza, pega seu copo de   plástico e  o põe  em cima do papel, abre a  geladeira, cada coisa no seu lugar, pega leite e açúcar , coloca   leite no copo, e  tira três colheres de açúcar, guarda-os de volta à geladeira, depois   abre o armário , pega  Nescau, e tocando nas beiradas encontra a colher e bota mais  três  colheres no copo, guarda o Nescau no lugar, e  mexe no líquido. Sua mente  divaga  nas lembranças dos tempos antigos, e após   mexer bem, coloca   a  colher na pia, e  bebe o  líquido todo,  acabado,  coloca-o  na   pia, e vê com insatisfação que restos de açúcar e de Nescau se espalharam no papel, e joga  fora o papel no lixo, apaga a luz   extra, e   também da cozinha, e  vai direto para o escritório, liga o computador, espera o ligar , enquanto põe o cigarro na  boca, e  fuma, falando para si mesma, “preciso parar de fumar, mas não consigo, e  não quero  chorar por   causa da minha vista, tenho que me  conformar...”, Ana  suspira resignada.
Fumando, se lembra  dos anos  felizes em que podia fazer  tudo sozinha.
Trabalhava com pessoas surdas  numa  empresa de grande  porte, era intérprete, ajudava as  pessoas,  intermediando as conversas , estabelecendo um elo entre dois mundos, de  ouvintes e de  surdos, a escrever cartas.Fazia isso de boa vontade, adorava o setor  em que  trabalhava, ela se sentia útil, ativa e necessária, se orgulhava de ter  ensinado as pessoas a lidarem com máquinas pesadas, saia à noite, ia a um bar da cidade, e ficava bebendo caipiwodka com  os   colegas, e  já houve noites em que ia a boate junto com amigas, e dançou a noite  toda. As amigas logo ficavam aos  beijos  com  os  rapazes, só que nenhum se  interessava ´por ela. Compreendia, era uma mulher magra, baixinha, enquanto as outras , eram altas, cabelos longos, corpos curvilíneos, do tipo de  mulheres que todo homem gosta. Ela  ficava triste, mas  naquela   época  não era dada as  tristezas e voltava para casa de   madrugada
Tinha um carro, mas quebrava toda hora,gastava   um dinheirão  e  em seis meses resolveu  vender. Nem pensava comprar outro automóvel, era   prejuízo , não tinha  valor algum.
Seus irmãos se  casaram, e  foram constituindo família. Ana  riu, ao se  lembrar que furara a fila pois  tivera  um filho, já que era caçula.
Não se casara, o pai de seu filho trabalhava na   mesma empresa, mas não queria compromisso algum com ela, e ela o aceitou sem preocupação, não se ligava no fato de que deveria se prevenir ,afinal era surda e muita coisa ela deixava de captar. não podia se acusar  só porque ela é  surda, poderia ter sido alertada mas nunca se abrira com a mãe Teve o seu filho com apoio da família Apesar de o pai de seu filho tê-la deixado passar o período da gravidez sozinha, magoada e triste, quando seu menino nasceu,  ela não quis  destruir  a amizade entre pai e  filho,então não cobrou  nada dele, deixou  por  isso mesmo... Era  bonito ver a amizade entre os  dois .. e   o respeito entre   pai e  filho ...
Ana era surda e cega de uma  vista  de  nascença, mas isso não atrapalhava a vida dela, sempre  trabalhou, pagava as  suas contas , fazia as compras , ia a restaurantes só  ou  com amigos, ia a cinema ver  filmes, se  tivesse legendas , ótimo ... e a  vida dela estava feita... só faltava  arrumar uma  pessoa e morar junto, ter mais um filho.
A  única coisa chata era as reuniões familiares, só ela era surda e o resto ouvinte, ela se sentava  à mesa, bebendo coca e comendo petiscos, e todos ali conversando, e ela fazia força para se  enturmar  e entender as conversas das  pessoas , mas desistia  logo, e  de  vez em quando a mãe  sentava ao lado dela, ou é tia, ou é  parente, enfim qualquer  pessoa que tivesse   paciência para conversar .
Mas a vida não foi generosa com ela, um dia foi ao consultório com o pai, para fazer revisão da  vista, e desde o começo quando começou a colocar  um colírio, o olho ficava vermelho, e ficava irritada quando a atendente cobrava que ela enxergasse com perfeição, sem se dar conta de que aquele olho era cego.
Mas quando soube  pela médica que  a pressão ocular estava a 42, Ana  levou um susto, mandaram fazer um exame às pressas , num outro dia, foi com o irmão, pois o pai estava ocupado.
Fez exame e o irmão disse que    ia   operar a vista.
     No início de janeiro, foi operada, fizeram um buraco na  córnea para drenar o líquido ocular, e quando voltou a si, com um tampão no olho, não enxergando nada, chorou
     Foi guiada pelos pais ao carro, e quando chegou em casa, chorou mais uma vez e o filho abraçado a ela, a  consolando,  recebeu visitas , mas não podia ver nada... nem mesmo com a  ajuda da prótese, não conseguia entender e no dia seguinte ela deu graças a Deus quando tiraram o tampão e  pôde ver de novo.  
     Dois meses se  passaram, voltou ao trabalho, mas desta vez algo mudou, do início ela não percebia, mas todos observaram que ela estava  perto do monitor  da máquina leitora-copiadora. E  começou a ter erros de serviço, até   que um dia a chefe pediu a ela para que se mudasse do setor para trabalhar  com os  documentos antigos ,e ela começou a perceber que o serviço dela não era mais essencial, e ela recusou . E ficou  no mesmo setor que  ela amava  de coração. Quando alguém tentava  ensinar-lhe algo que ela sabia há anos, ficava  contrariada, mas  não falava  nada.
     E com a venda da casa onde   toda a família morava e ficara  grande demais para 5 pessoas, uma casa de três andares onde  viviam 10 pessoas, com  parte do dinheiro da venda de casa, onde ela morara por quase 30 anos, e mais o FGTS ,ela conseguiu comprar já quitado um apartamento Os pais,a avó e o filho de  Ana alugaram um apartamento .Ana ficou  triste ao se separar do filho, mas ela sabia que não tinha ninguém para tomar   conta dele, nem tinha condições extras como as aulas de inglês, de  violão .
     Mas ela sabia que no intimo que não viveria feliz por causa da sua  saúde,  por  muito tempo, algo que  ela intuía  dentro de si mesmo.
     No mesmo ano da mudança , o pai ficou doente, a  saúde fora  abalada, e ela adivinhava que ele  não iria viver  muito tempo.
     Mas no final do ano, o pai ficara curado, e  todos suspiraram de alivio.
     E a  chefe de Ana não quis  mais saber que ela ficasse mais  no setor e a transferiu para outra sala com papéis antigos, empoeirados,e ela  desabafava com um rapaz com quem ela estava saindo,  que  não gostava daquele  lugar que era barulhento, tinha mais de 15 a 20 pessoas no mesmo cômodo, e resolveu se  matricular para concluir  o segundo grau , fazer a prova num concurso  e sair da empresa que não a  promovia, há anos não tinha aumento de salário, foi reduzido de três para dois  e  por  último só um bloco de tíquetes refeições, e depois  passando para  cartão de alimentação e  vale transporte.Ela estava estudando numa escola de surdos, para ela ficava mais fácil de entender as matérias, mas no meio do ano, o olho começou a  coçar e a ficar vermelho, foi direto ao médico, e esse ficou assustado, mandaram -na para um especialista , fez inúmeros exames, e ela sentiu a vista diminuir , não enxergando mais como naquele tempo.Percebeu que a vista ficou embaçada, como se fosse uma    pessoa saindo de  um banho quente e no espelho ficava uma imagem embaçada. Era assim que ela via, e disseram a ela que tinha uveite, infecção da córnea, mandaram-na para um médico reumatologista ´para descobrir a causa daquela doença, e  depois que fez inúmeros exames, descobriu que ela tinha uma doença auto-imune na coluna  lombar. Mandaram que ela tomasse  medicação intravenosa, por quase 6  meses, e esse remédio era forte, fazia com que  um punhado de cabelos caísse, deixando –a careca no alto da cabeça.
Ela  não entendia o porque do restante  do cabelo não caia, mas deixou  isso para lá......
     No inicio do outro ano, as mãos  e  os  pés tiveram psuíiase , por    conta dos remédios fortes  E sem a  presença da pessoa , por quase 9 meses, ela estranhou, e  terminou com ele , e  ele reclamou  um pouco, mas depois parou.E três meses depois , disse que se casara com outra. Ana ficou magoada,ficou com ele por 9 anos e de  repente ele se casa com outra mulher?Ana ficou desconfiada que  ele mantinha caso com ela. E ela viu, com tristeza que a mulher era ouvinte e enxergava Novamente deixou para lá.
     Enfim, no final do ano se formou, mas a que preço? Estava de licença médica e logo  se aposentaria , não adiantava mais  fazer  projetos para o futuro na outra  empresa.
     E no ano seguinte, o pai ficou  doente seriamente, e Ana  conheceu um rapaz. Ele a pediu em namoro e ela  aceitou, e dois  meses depois o pai morre, e o rapaz some. Já    passaram três  anos.
     E Ana, acabando de fumar, encerra suas lembranças, e  olha os  e-mails nada da mensagem, e vai a uma rede social , lê com dificuldades as mensagens, e  responde quase a todas.
Depois lê o jornal, suspira desanimada com as  notícias, todas péssimas , raras são as  boas.
     E   fica jogando por   várias horas, de vez em quando ela se levanta ora para o banheiro, ora para a cozinha, ora para o quarto para cochilar.  
     Que  tédio... Ela olha a casa, com a morte do pai, cada filho recebeu seguro de vida, e Ana sabia que não mais poderia viver   longe da família por  causa da sua vista. Resolveu vender o apartamento junto com o seguro de  vida, e viu desanimada que não poderia quitar um imóvel, sendo obrigada a  pedir um empréstimo residencial, mas resolveu morar ali mesmo perto dos familiares.
     Ana se sente só. Não pode mais fazer as compras, não paga mais as suas contas, está sem cartão de crédito, por causa da vista. , não pode   mais sair  sozinha para qualquer lugar, a  qualquer  hora, embora ela não se revolte, se conformando com a situação, lembra daqueles dias felizes em que era independente.
     Ela fica  feliz quando recebe as visitas de sua mãe, de   vez em quando de  seu filho e raras vezes um amigo. Ela sabe que a mãe  não pode ficar muito tempo com ela, pois  a avó não podia ficar  sozinha de jeito nenhum, está com idade   avançada, e sabe que seu filho trabalha numa grande empresa, cujo chefe valoriza muito o trabalho dele, mas se sente realmente  realizado como ator, ele mal tem tempo para respirar, mas  sabe que em seus pensamentos , ela é uma referência na mente  dele> MÃE, e  mesmo distante, manda  mensagem para  ela, e  responde  na  mesma  hora, mas  espera  que  o filho leia, não se  sabe meia hora, uma  hora  ou  horas  depois, sempre  responde, ela  sabe que ele responde  ... e recebe raras  vezes  visita  de um amigo, em que ficava horas  conversando, mas sabe que está sempre ocupado.
     Quando ela olha para o céu azul com  o sol  brilhante mesmo com a  vista embaçada ela sente  saudades de praia, e  já tinha   três anos que ela não ia mais à praia.
     Lembrou da recomendação do médico que ela precisava ficar 15 minutos no sol, até tentou fazer, mas desistiu da idéia depois que um senhor tentou conversar  com ela, disse que era surda e que tinha problemas de vista, o senhor fez tentativas para se  entenderem , mas na cabeça de Ana queria sair dali pois ela não conseguia mais entender o que as outras pessoas falavam e não era mal  educada, esperou o senhor  ir  embora e  foi para dentro da casa chorando de  nervoso e de aflição.
E um dia, ela foi  caminhar , mas parava de andar, quando percebia que as outras pessoas queriam passar na frente dela, e retomava o caminho, mas quando ela não percebia atropelava as pessoas, até  que uma adolescente falou e   gesticulou e não entendeu nada e voltou para casa desanimada ao ver  que  um passeio de sol interrompido pela incompreensão das pessoas.
     E agora com a   piora da vista, ela fica mais   isolada ainda, principalmente nas reuniões familiares, em que se sente mais   ilhada ainda, enxerga  com dificuldade as pessoas e reconhece pelas cores das roupas das pessoas , ela  olha e  parece que está dentro da neblina, de  vez em quando, só uma   pequena  alteração, parecia que via duas pessoas, mas era apenas uma. Ela  acende  um cigarro para não chorar. Nem adiantava o convite  da mãe pois se sentia mal não conseguindo mais ver as pessoas , objetos e coisas afins. Ela  preferia  ficar só e não incomodar mais pessoas, só tinha uma tristeza  profundo no seu coração: não ter conseguido conquistar um amor de um homem que quisesse ficar com ela, que a protegesse, que  cuidasse dela, que conversasse, risse e brincasse.E ela, no tédio... sem nada para a animar , so passando o tempo a jogar, comer, beber, fumar e dormir.. são raras as  felicidades em se reunir  com o filho amado, mas ele está sempre ocupado. E ela olha a casa , e  pensa/. Pelo  menos o  filho tem um imóvel para morar depois que ela se  for.
Sente-se  uma pessoa estranha nesse mundo, não consegue mais usar o aparelho escutando vozes, barulhos , só usa quando preciso, mas  ela fica o maior  tempo de sua vida em casa, e  não usa. Prefere o silêncio.Ela vê através do celular que já é noite, e se prepara para desligar o computador, acaba  o último cigarro, e tateando , desliga o ventilador, apaga a luz, acende a  do quarto, liga o ventilador , apaga a luz e se deita, reza toda noite  e  fecha os   olhos para dormir.

     Mas demora a dormir, a solidão aumenta a depressão, aniquila, destrói em todo  o seu ser. 

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