- A solidão é uma doença
Ana acordou.Como sempre, a primeira coisa ,quando abre os olhos ,é
uma forte fotofobia, e saindo da
cama, se encostar nas beiradas das coisas até chegar ao banheiro, faz
necessidades e se lava.
Ao sair do banheiro, vai direto à cozinha, liga a tomada
da luz
extra , coloca o papel toalha sobre
uma tábua branca sobre a pia cinza, pega seu copo de plástico e
o põe em cima do papel, abre
a geladeira, cada coisa no seu lugar,
pega leite e açúcar , coloca leite no
copo, e tira três colheres de açúcar,
guarda-os de volta à geladeira, depois
abre o armário , pega Nescau, e
tocando nas beiradas encontra a colher e bota mais três
colheres no copo, guarda o Nescau no lugar, e mexe no líquido. Sua mente divaga
nas lembranças dos tempos antigos, e após mexer bem, coloca a
colher na pia, e bebe o líquido todo, acabado, coloca-o
na pia, e vê com insatisfação
que restos de açúcar e de Nescau se espalharam no papel, e joga fora o papel no lixo, apaga a luz extra, e
também da cozinha, e vai direto
para o escritório, liga o computador, espera o ligar , enquanto põe o cigarro
na boca, e fuma, falando para si mesma, “preciso parar
de fumar, mas não consigo, e não
quero chorar por causa da minha vista, tenho que me conformar...”, Ana suspira resignada.
Fumando, se lembra
dos anos felizes em que podia
fazer tudo sozinha.
Trabalhava com pessoas surdas numa
empresa de grande porte, era intérprete,
ajudava as pessoas, intermediando as conversas , estabelecendo um
elo entre dois mundos, de ouvintes e
de surdos, a escrever cartas.Fazia isso
de boa vontade, adorava o setor em
que trabalhava, ela se sentia útil,
ativa e necessária, se orgulhava de ter
ensinado as pessoas a lidarem com máquinas pesadas, saia à noite, ia a
um bar da cidade, e ficava bebendo caipiwodka com os
colegas, e já houve noites em que
ia a boate junto com amigas, e dançou a noite
toda. As amigas logo ficavam aos
beijos com os
rapazes, só que nenhum se
interessava ´por ela. Compreendia, era uma mulher magra, baixinha,
enquanto as outras , eram altas, cabelos longos, corpos curvilíneos, do tipo
de mulheres que todo homem gosta.
Ela ficava triste, mas naquela
época não era dada as tristezas e voltava para casa de madrugada
Tinha um carro, mas quebrava toda hora,gastava um dinheirão
e em seis meses resolveu vender. Nem pensava comprar outro automóvel,
era prejuízo , não tinha valor algum.
Seus irmãos se
casaram, e foram constituindo
família. Ana riu, ao se lembrar que furara a fila pois tivera
um filho, já que era caçula.
Não se casara, o pai de seu filho trabalhava
na mesma empresa, mas não queria
compromisso algum com ela, e ela o aceitou sem preocupação, não se ligava no
fato de que deveria se prevenir ,afinal era surda e muita coisa ela deixava de
captar. não podia se acusar só porque
ela é surda, poderia ter sido alertada mas
nunca se abrira com a mãe Teve o seu filho com apoio da família Apesar de o pai
de seu filho tê-la deixado passar o período da gravidez sozinha, magoada e
triste, quando seu menino nasceu, ela
não quis destruir a amizade entre pai e filho,então não cobrou nada dele, deixou por
isso mesmo... Era bonito ver a
amizade entre os dois .. e o respeito entre pai e
filho ...
Ana era surda e cega de uma vista
de nascença, mas isso não atrapalhava
a vida dela, sempre trabalhou, pagava as
suas contas , fazia as compras , ia a
restaurantes só ou com amigos, ia a cinema ver filmes, se
tivesse legendas , ótimo ... e a
vida dela estava feita... só faltava
arrumar uma pessoa e morar junto,
ter mais um filho.
A única
coisa chata era as reuniões familiares, só ela era surda e o resto ouvinte, ela
se sentava à mesa, bebendo coca e
comendo petiscos, e todos ali conversando, e ela fazia força para se enturmar
e entender as conversas das
pessoas , mas desistia logo,
e de
vez em quando a mãe sentava ao
lado dela, ou é tia, ou é parente, enfim
qualquer pessoa que tivesse paciência para conversar .
Mas a vida não foi generosa com ela, um dia foi ao
consultório com o pai, para fazer revisão da
vista, e desde o começo quando começou a colocar um colírio, o olho ficava vermelho, e ficava
irritada quando a atendente cobrava que ela enxergasse com perfeição, sem se
dar conta de que aquele olho era cego.
Mas
quando soube pela médica que a pressão ocular estava a 42, Ana levou um susto, mandaram fazer um exame às
pressas , num outro dia, foi com o irmão, pois o pai estava ocupado.
Fez
exame e o irmão disse que ia operar a vista.
No início de janeiro, foi operada, fizeram
um buraco na córnea para drenar o
líquido ocular, e quando voltou a si, com um tampão no olho, não enxergando
nada, chorou
Foi guiada pelos pais ao carro, e quando
chegou em casa, chorou mais uma vez e o filho abraçado a ela, a consolando, recebeu visitas , mas não podia ver nada...
nem mesmo com a ajuda da prótese, não
conseguia entender e no dia seguinte ela deu graças a Deus quando tiraram o
tampão e pôde ver de novo.
Dois meses se passaram, voltou ao trabalho, mas desta vez
algo mudou, do início ela não percebia, mas todos observaram que ela
estava perto do monitor da máquina leitora-copiadora. E começou a ter erros de serviço, até que um
dia a chefe pediu a ela para que se mudasse do setor para trabalhar com os
documentos antigos ,e ela começou a perceber que o serviço dela não era
mais essencial, e ela recusou . E ficou
no mesmo setor que ela amava de coração. Quando alguém tentava ensinar-lhe algo que ela sabia há anos,
ficava contrariada, mas não falava
nada.
E com a venda da casa onde toda a família morava e ficara grande demais para 5 pessoas, uma casa de três
andares onde viviam 10 pessoas, com parte do dinheiro da venda de casa, onde ela
morara por quase 30 anos, e mais o FGTS ,ela conseguiu comprar já quitado um
apartamento Os pais,a avó e o filho de
Ana alugaram um apartamento .Ana ficou
triste ao se separar do filho, mas ela sabia que não tinha ninguém para
tomar conta dele, nem tinha condições extras
como as aulas de inglês, de violão .
Mas ela sabia que no intimo que não viveria
feliz por causa da sua saúde, por
muito tempo, algo que ela
intuía dentro de si mesmo.
No mesmo ano da mudança , o pai ficou
doente, a saúde fora abalada, e ela adivinhava que ele não iria viver muito tempo.
Mas no final do ano, o pai ficara curado,
e todos suspiraram de alivio.
E a
chefe de Ana não quis mais saber
que ela ficasse mais no setor e a
transferiu para outra sala com papéis antigos, empoeirados,e ela desabafava com um rapaz com quem ela estava
saindo, que não gostava daquele lugar que era barulhento, tinha mais de 15 a
20 pessoas no mesmo cômodo, e resolveu se
matricular para concluir o
segundo grau , fazer a prova num concurso e sair da empresa que não a promovia, há anos não tinha aumento de salário,
foi reduzido de três para dois e por último
só um bloco de tíquetes refeições, e depois passando para cartão de alimentação e vale transporte.Ela estava estudando numa
escola de surdos, para ela ficava mais fácil de entender as matérias, mas no meio
do ano, o olho começou a coçar e a ficar
vermelho, foi direto ao médico, e esse ficou assustado, mandaram -na para um
especialista , fez inúmeros exames, e ela sentiu a vista diminuir , não
enxergando mais como naquele tempo.Percebeu que a vista ficou embaçada, como se
fosse uma pessoa saindo de um banho quente e no espelho ficava uma
imagem embaçada. Era assim que ela via, e disseram a ela que tinha uveite,
infecção da córnea, mandaram-na para um médico reumatologista ´para descobrir a
causa daquela doença, e depois que fez
inúmeros exames, descobriu que ela tinha uma doença auto-imune na coluna lombar. Mandaram que ela tomasse medicação intravenosa, por quase 6 meses, e esse remédio era forte, fazia com
que um punhado de cabelos caísse,
deixando –a careca no alto da cabeça.
Ela não entendia o porque do restante do cabelo não caia, mas deixou isso para lá......
No inicio do outro ano, as mãos e os pés
tiveram psuíiase , por conta dos
remédios fortes E sem a presença da pessoa , por quase 9 meses, ela
estranhou, e terminou com ele , e ele reclamou
um pouco, mas depois parou.E três meses depois , disse que se casara com
outra. Ana ficou magoada,ficou com ele por 9 anos e de repente ele se casa com outra mulher?Ana ficou
desconfiada que ele mantinha caso com
ela. E ela viu, com tristeza que a mulher era ouvinte e enxergava Novamente
deixou para lá.
Enfim, no final do ano se formou, mas a que
preço? Estava de licença médica e logo se aposentaria , não adiantava mais fazer
projetos para o futuro na outra
empresa.
E no ano seguinte, o pai ficou doente seriamente, e Ana conheceu um rapaz. Ele a pediu em namoro e
ela aceitou, e dois meses depois o pai morre, e o rapaz some. Já passaram três anos.
E Ana, acabando de fumar, encerra suas
lembranças, e olha os e-mails nada da mensagem, e vai a uma rede
social , lê com dificuldades as mensagens, e
responde quase a todas.
Depois
lê o jornal, suspira desanimada com as
notícias, todas péssimas , raras são as
boas.
E
fica jogando por várias horas, de vez
em quando ela se levanta ora para o banheiro, ora para a cozinha, ora para o
quarto para cochilar.
Que
tédio... Ela olha a casa, com a morte do pai, cada filho recebeu seguro
de vida, e Ana sabia que não mais poderia viver longe da família por causa da sua vista. Resolveu vender o apartamento
junto com o seguro de vida, e viu
desanimada que não poderia quitar um imóvel, sendo obrigada a pedir um empréstimo residencial, mas resolveu
morar ali mesmo perto dos familiares.
Ana se sente só. Não pode mais fazer as
compras, não paga mais as suas contas, está sem cartão de crédito, por causa da
vista. , não pode mais sair sozinha para qualquer lugar, a qualquer hora, embora ela não se revolte, se
conformando com a situação, lembra daqueles dias felizes em que era
independente.
Ela fica
feliz quando recebe as visitas de sua mãe, de vez em quando de seu filho e raras vezes um amigo. Ela sabe que
a mãe não pode ficar muito tempo com
ela, pois a avó não podia ficar sozinha de jeito nenhum, está com idade avançada, e sabe que seu filho trabalha numa
grande empresa, cujo chefe valoriza muito o trabalho dele, mas se sente
realmente realizado como ator, ele mal
tem tempo para respirar, mas sabe que em
seus pensamentos , ela é uma referência na mente dele> MÃE, e mesmo distante, manda mensagem para
ela, e responde na
mesma hora, mas espera
que o filho leia, não se sabe meia hora, uma hora
ou horas depois, sempre responde, ela
sabe que ele responde ... e
recebe raras vezes visita
de um amigo, em que ficava horas
conversando, mas sabe que está sempre ocupado.
Quando ela olha para o céu azul com o sol brilhante
mesmo com a vista embaçada ela
sente saudades de praia, e já tinha
três anos que ela não ia mais à
praia.
Lembrou da recomendação do médico que ela
precisava ficar 15 minutos no sol, até tentou fazer, mas desistiu da idéia
depois que um senhor tentou conversar
com ela, disse que era surda e que tinha problemas de vista, o senhor
fez tentativas para se entenderem , mas
na cabeça de Ana queria sair dali pois ela não conseguia mais entender o que as
outras pessoas falavam e não era mal
educada, esperou o senhor ir embora e
foi para dentro da casa chorando de
nervoso e de aflição.
E
um dia, ela foi caminhar , mas parava de
andar, quando percebia que as outras pessoas queriam passar na frente dela, e
retomava o caminho, mas quando ela não percebia atropelava as pessoas, até que uma adolescente falou e gesticulou e não entendeu nada e voltou para
casa desanimada ao ver que um passeio de sol interrompido pela
incompreensão das pessoas.
E agora com a piora da vista, ela fica mais isolada ainda, principalmente nas reuniões
familiares, em que se sente mais ilhada
ainda, enxerga com dificuldade as
pessoas e reconhece pelas cores das roupas das pessoas , ela olha e
parece que está dentro da neblina, de
vez em quando, só uma
pequena alteração, parecia que
via duas pessoas, mas era apenas uma. Ela
acende um cigarro para não
chorar. Nem adiantava o convite da mãe
pois se sentia mal não conseguindo mais ver as pessoas , objetos e coisas
afins. Ela preferia ficar só e não incomodar mais pessoas, só
tinha uma tristeza profundo no seu
coração: não ter conseguido conquistar um amor de um homem que quisesse ficar
com ela, que a protegesse, que cuidasse
dela, que conversasse, risse e brincasse.E ela, no tédio... sem nada para a
animar , so passando o tempo a jogar, comer, beber, fumar e dormir.. são raras
as felicidades em se reunir com o filho amado, mas ele está sempre
ocupado. E ela olha a casa , e pensa/.
Pelo menos o filho tem um imóvel para morar depois que ela
se for.
Sente-se uma pessoa estranha nesse mundo, não consegue
mais usar o aparelho escutando vozes, barulhos , só usa quando preciso,
mas ela fica o maior tempo de sua vida em casa, e não usa. Prefere o silêncio.Ela vê através do
celular que já é noite, e se prepara para desligar o computador, acaba o último cigarro, e tateando , desliga o
ventilador, apaga a luz, acende a do
quarto, liga o ventilador , apaga a luz e se deita, reza toda noite e
fecha os olhos para dormir.
Mas demora a dormir, a solidão aumenta a
depressão, aniquila, destrói em todo o seu
ser.
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